Aquele guarda-roupa

 Quando eu era mais nova, os objetos me fascinavam. Um porta joia preto com flores vermelhas desenhadas, uns álbuns antigos misturados a alguns itens de higiene. Sempre achei que havia algo de misterioso dentro daquele guarda roupa preto. Ele tinha seis grandes portas largas, que pareciam caber tantas vidas lá dentro. Imaginei tantas coisas que poderia haver nele: uma fotografia sua grávida de mim ou uma roupa minha de quando nasci...ou qualquer coisa boba que me revelasse algo grande.

Com o passar do tempo, fui observando melhor o que tinha lá...umas joias antigas, umas fotos de debutante, uma roupinhas antigas de bebê...mas a revelação foi descobrir que nada daquilo me pertencia. Nada. Fui começando a perceber que havia um abarrotamento de coisas...muitas que não serviam mais, outras que talvez nunca mais fosse usada, outras surrupiadas de algum lugar...e tudo aquilo se distanciava mais do que seria meu um dia.

Mais fascinante que o guarda-roupa enorme, preto, abarrotado, era o banheiro privativo ao lado. Ele que me lembrava que havia dois banheiros na casa, mas nenhum era meu. Assim como não era minha aquelas coisas que me fascinavam. 

Hoje aquele guarda-roupa esvaziou, com todas os objetos que havia, com todas as fantasias que preenchia, com toda a memória que guardava.

Vazio. Um enorme vazio ficou.

 
Além do Nosso Espelho © 2015 | Criado Por Aline Lima