Santo

Eu estava na feira. Um rapaz de bermuda passou oferecendo alho, um homem gritava algo sobre a política atual, uma criança dormia embaixo do banco da feira segurando um urso, uma mulher vendia suas frutas, reparei na banca ao lado e as cores dos legumes pareciam mais vívidos. Sorri ao pedir uma tapioca com queijo, conversei com a moça que me vendia toda suja de branco, escutei sobre seu cansaço em sair de casa às 4h da manhã para o trabalho. Sai da feira e entrei no carro, começou a tocar um samba antigo que sempre ouvia contigo, uma lágrima desceu do meu rosto, segui...

Os meus poros eram quase todos já conhecidos por mim, os teus ainda eram mistério. Todas as vezes que toquei em você foi sagrado pra mim. Mas tu zombasse do meu sacro amor e começastes a me evitar Não posso dizer que não percebi. Doeu sim também. E como tudo que é santo, guardei num lugar só meu.



mulheres

 Elas sorriem quando querem gritar.

Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao medico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversario ou um novo casamento.

Seus corações quebram quando seus amigos morrem.
Elas lamentam-se com a perda de um membro da família,
contudo são fortes quando elas pensam que não há mais força.
Elas sabem que um abraço e um beijo podem curar um coração quebrado.
O coração de uma mulher é o que faz o mundo girar!

Mulheres fazem mais do que dar a vida.
Elas trazem alegria e esperança.
Elas dão compaixão e ideais.
Elas dão apoio moral para sua família e amigos.
Mulheres têm muito a dizer e muito a dar.


Pablo Neruda

parto normal

 Saber esperar o tempo.


A torre

 minhas paredes

desabaram

– só se ouviu
o som –

oitocentos reais
de tijolos cimento
azulejos rejunte
branco

– as paredes
foram
desabando –

como todos
os grandes
muros

políticos
protetivos
cativos
coloridos
mijados

– onde se escoram
os cansados –

minhas paredes
cumpriram
seu tempo

( Jarid Arraes)

Angústia #2

 pensamento em dia de angústia


não sei o que essa coisa quer me dizer....eu conto a vida por respirada,

aaa uuu 

 alívio

boca seca!

aberta em esperança do ar, mas nada entra

só um vazio atravessa.


Discorro os versos como quem libera a coisa, mesmo sem saber exatamente o que!

será medo?!será raiva?

será que meu peito um dia solta?!

não encontro resposta, apenas me faço as perguntas.

durmo pra em sonho revelar-me,

nada vem!

só angústia.


...

 Minha tristeza é falsa; basta uma palavra pra se desfazer em risada.


Aline Lima



Filha

 Meu lugar era um quartinho no fundo da casa. Não tínhamos banheiro. Pela manhã, ela pegava o penico embaixo da cama, e despejava no vaso que ficava próximo à cozinha. Todas as manhãs, o penico estava lá mostrando o nosso lugar.  Eu não achava ruim, até me acostumei  a espaços pequenos, toda comunicação era feita na porta do quartinho. Qualquer pessoa colocava a cabeça na porta e falava o que queria. A entrada era restrita , mas não havia placa de proibido entrar pendurada, mas uma barreira simbólica que só percebi anos depois.

De vez em quando eu ia pra restaurantes caros, comia ate MacDonalds, mas só não era melhor que os passeios à praia aos domingos.  Minha mãe levava o balde e eu ficava fazendo conchinha de areia pra esquecer meu medo do mar. Tinha também os passeios pro trabalho dela, em que eu ficava rodando na cadeira giratória e fantasiava que eu era alguma empresária importante que só dava ordens. 

Enquanto isso minha mãe estava em casa. O quartinho era só pra dormir e trocar de roupa. Devia estar na cozinha lavando louça ou limpando os banheiros. Ela fazia tudo sozinha: Colocava as crianças pra escola, ajeitava o almoço, fazia compras, lavava roupa e todo tipo de sujeira.  Eu fui crescendo achando que minha mãe era babá porque ela que colocava as mochilas nas costas e segurava os meninos pelas mãos pra levar à escola. 

Uma vez recebi na escola um gesso com uma foto dela no dia das mães, fiquei sem entender porque trocaram de mãe e colocaram a babá. Aquele povo da escola era mesmo doido, mas por que eu dormia no quarto fora se todo mundo tinha quarto dentro? 

Minha mãe dormia todo dia lá, eu achava que era porque a mãe dela não gostava dela porque ela me teve. Eu nem sabia o nome da minha avó, só lembro que ela quis bater na minha mãe quando ela me levou pra conhecê-la.  Nunca entendi o porquê, mas também nunca entendi por que no meu registro de nascimento não tinha o nome do meu pai sendo que eu o via todo dia. Não entendia porque eu tinha que pedir e até chorar pra comer Nissin miojo ou bolacha recheada, enquanto meu irmão só abria o pacote, em frente ao televisor assistindo cavaleiros do zodíaco.

Minha mãe me dava presentes e ensinava a tarefa, a outra me forçava a comer e me colocava pro colégio. Era fácil gostar da primeira porque a segunda ficava só com a parte chata...

Crescer foi a parte mais difícil dessa história, mas inevitavelmente aconteceu. O joelho sempre ralado se tornou meu menor problema, porque o coração estara arranhado sempre. Tive que entender meu lugar nesse quartinho que já não suportava minha imensidão de ser....

Revisito esse quartinho sempre que algo vem me avisar de que ele existiu. Da memória ele nunca saiu...Está lá pra lembrar de onde vim e pra onde não fui.




Convencimento

 Não sinto falta de quase nada em vocÊ. Só de quando recebia uma música que tu ouvia no rádio e lembrava de mim. A playlist agora está vazia. Esvaziei todos os locais que ainda tinha uma parte tua. Não foi fácil,mas foi preciso. Ainda assim tem sempre aquele desavisado que, sem querer, manda uma mensagem tua pelas invisíveis linhas daqueles que se perderam. Ainda assim tem sempre uma parte tua, que finjo não ver e varro pras sombras do meu inconsciente enquanto me repito todos os dias que não era pra ser.

Ainda assim sinto falta. Sinto falta do sábado à tarde e da sensação de euforia que eu ficava com tua chegada. vocẽ não vinha por inteiro, havia sempre um pretexto para ir, um olhar de observação em que me avaliavas sem eu perceber, porque os meus olhos eram de entrega, os teus de defesa.

Ainda assim lembro da tua alegria em conhecer algo novo, um lugar, uma palavra, uma música e eu me sentia naquele lugar de importância que tentamos voltar desde que saímos da infância. Lembro da primeira noite, das lágrimas de alegria, dos presentes cujo valor eu supervalorizava, dos planos que pra mim eram reais, e nem percebia no abismo que havia entre eles, eram como duas estradas que não se cruzariam nunca.

Sinto falta da tua admiração estampada no rosto, que deixava claro que nenhuma mulher era mais especial e única que eu, e se desfazia quando lembrava que mesmo assim vocÊ insistia em colocar muitas na nossa história. Sinto falta do teu interesse em tudo que eu falava e o total convencimento  de que não havia ninguém com palavras mais sábias, e eu sentia que toda palavra que me foi calada, estava sendo consentida ali e me cabia usufruir do espaço.

Sinto falta do teu toque delicado, tua carícia arrastando meu cabelo pra detrás da orelha, do beijo que meu corpo não estranhava, que me cabia e encaixava como se sempre só a tua boca eu houvesse beijado. Mas não...tentei beijar outras pessoas, algumas queriam algo mais, mas em nenhuma eu via teu rosto. Ainda bem.

Ainda tem um cheiro teu aqui num objeto que nem sei mais onde está. Escondi para tua lembrança não ficar me assombrando. Mesmo assim  não sinto falta de quase nada em você. Só de quem eu achei que vocÊ era.


14.03.22

mar

 Há muito mistério na simplicidade. Quando criança, a primeira vez que o vi tinha uns 6 anos, imponente, misterioso, grande. Sabia que eu e ele estaríamos misturados, depois houve muitos encontros só nossos. Era sempre na casa de praia da minha mãe durante as férias, depois passou a ser com frequência aos sábados sozinha.

Ele me provocava uma espécie de encanto. Aquelas ondas, aquela abundância, aquela luz à noite que o adormecia enquanto a vida continuava a acontecer. Muito, mas muito depois percebi que havia muito do mar em mim.

Há os que chegam apenas na beira, molham os pés, querem ir até a cintura,mas não conseguem.

Há os que nem se atrevem, olham com temor, talvez temem serem afogados.

Há os que contemplam com ternura, admiração, expressam uma lágrima quando são contemplados com a beleza inerente a ele.

Há os que velejam, adentram, se arriscam a conhecer seus mundos, suas pérolas, pegam sempre algo para si e deixam sempre algo quando vão embora

Há os que se despem, mergulham, enxergam através da água turva remexida da areia, dançam nas ondas, beijam a areia, agradecem a oportunidade de estar.

e eu de amar.

Mulher #2


 
Que mulher que

sou

me pergunto agora

que não sabe ser

que voltou a ser

que tenta aprender


Que mulher que

sou

quando todos riram

e meu espelho não soube responder

Que mulher que 

sou

quando vejo ela

e tento entender


Que mulher que

sou 

misturada

marcada

silenciada

desejada


Que mulher que sou

Sou mulher pra você?

Mulher #1

Nasci prematura

de tamanho e afeto

fui enchendo aos poucos

nas pernas

na cintura

nos braços

nos abraços

me refiz

e cresci

procurando respostas

achei as mais difíceis.


Palavra

 A palavra é como rio

ora enche 

ora seca

ora se vai

ora me pega

Por entre minhas mãos 

ela escorre

por entre meus olhos 

ela se esconde

e em vão tento entendê-la.




"Há quem use a literatura, há quem viva a literatura."

Labaredinhas

 Eu preciso falar de quando meu tempo era todo teu?  Olho o relógio, são 19h de uma sexta á noite. O horário dos apaixonados. Esperava tua chegada toda sexta por essas horas. O final de semana seria todo nosso. Comecei a me acostumar com essa nossa rotina.

O tempo não costuma gostar de rotinas. Eu observo minha jiboia em cima da geladeira e quando você chegou ela não tinha nem cinco folhas ainda. As promessas, antes de se perder no tempo, se perdem nas palavras. 

Fechei a porta para nos proteger dos olhares dos outros. O cheiro do seu cabelo provocava meu piercing no nariz e era melhor que qualquer cheiro em qualquer bar, ao menos pra mim. A gente festejava a vida em plena segunda-feira á noite, ignorando tudo lá fora.

Desde o primeiro sorriso que te dei, entre cheiros etílicos, eu sabia que eu me enrolaria nos panos de nossa história, eu só não sabia que seria tão difícil assim me desvincilhar. As tardes passavam sempre devagar deitados na rede, enquanto você massageava meu pé, me fazendo me sentir uma rainha em alta soberania.

Eu não costumava exigir muito então isso já me era tão suficiente que eu dizia obrigada a qualquer gesto seu. De repente, algo mudou e tudo isso passou a ser tão pouco. Eu queria tua presença nem que fosse de vez em quando, para me aquecer de madrugada ou tua ligação em qualquer horário do dia. Eu queria saber do teu dia porque estar contigo só era pouco pro meu desejo. 

De repente, meus desejos eram cobranças. E tu,já meio cansado, me respondia com duas palavras atravessadas: preciso dormir e eu ficava com uma ausência. Uma ausência tão grande. Os dias continuaram e eu insistia em fazer parte da tua vida, já tu, fazias malabarismos para fazer parte da minha. O sentimento de, pela primeira vez, enxergar o que não via. Exigir do outro o que ele não pode me dar é minha via crucis.

Peguei os diários que eu escrevia. Contei quantas vezes teu nome se repetiu. Naquele momento aprendi mais uma lição. Não estava certa disso, por isso ponderei. Rasguei as folhas e fiz uma fogueira. As chamas não foram tão altas assim, mas dentro de mim uma brasa se acendeu.

Sai de casa andando, sendo assistida pelas crianças brincando de pega pega na rua, pelos carros, pelos vizinhos, comecei a correr. Eu pensei no que seria. Uma voz que me pedia. E então compreendi outra coisa: Se apegar ao seu eu destruído é muito mais comum que pensam. 

Voltei para casa e vi quinze chamadas perdidas. Todas suas. Desliguei o celular e  joguei na fogueira junto com as folhas. As pequenas labaredinhas cumpriram seu papel. Eu já não estava sozinha, estava comigo.

23.07.2021






Desilusão

 Eu estava sentada na calçada. Você passava segurando seu cachorro filhotinho e sorria pra mim. Ali era o início de uma história que achei que contaria aos nossos netos. Mas a vida tem caminhos desiguais. Não duramos nem uma década. Já anuncio logo o fim, porque a minha vida toda foi de expectativas.

Do sorriso até o pedido de namoro demorou um tempo. Você ficava sempre desconfiado,não sabia exatamente se era só simpatia, todo mundo com baixa autoestima sente isso. Se sentir especial e desejado parece inalcançável. Mas você tinha coragem. Eu achei que tinha. Depois disso,você me chamou pra comer cachorro quente na praça e nem temia que todos da cidade veriam e falariam que a filha de Zé Correia, mal falada porque foi pega pulando a janela da casa do Seu Pedro da padaria, estaria fazendo mais uma vítima.

sempre foi duro ser mulher, mas ser mulher em cidade pequena parece que é muito mais.

você tinha uma franja grande que cortava seu rosto e deixava só um olho aparecendo. Um olho puxado que a gente não sabia bem quando tava aberto, porque fechava ao sorrir. Você vivia assim de rir de minhas piadas, de minhas histórias de quando passei um tempo no sítio da minha avó e colocava carrapicho na cama para assustar a velha, ou quando ria da catinga dos porcos no quintal com quem eu brincava até cansar ou quando comia tanto pequi que me dava dor de barriga.

Você era meu maior fã. E como todo fã espera muito do ídolo.

Eu não tinha muito a te oferecer, mas tinha minha alegria. Você passou a me levar aos passeios com seu cachorro. Perdia-o de vista porque não desgrudava os olhos dos meus. Eu acho que gostava mais da atenção que você me dava que de você.

Não era muito de falar, mas você era meu melhor ouvinte. Passávamos as tardes na minha casa assistindo. Eu apontava pra televisão de tubo e dizia que queria ser igual aquela atriz, a do cabelo liso de luzes. Você ria e dizia que eu era mais bonita.

Todos da cidade olhavam, falavam. Diziam que eu queria dar o golpe da barriga. Você não era rico,mas seu pai trabalhava no banco e isso já era maior que a renda da minha família inteira. Mas eu não me importava com o que você tinha. Nossos olhos se entendiam.

Você me deu um presente no meu aniversário. Um salto alto igual ao da atriz da televisão. Coloquei um batom vermelho, o salto e você me levou pra tomar sorvete á noite na praça.  Eu estava tão bonita. Um menino me empurrou, me chamou de prostituta, e você ficou calado. Tomei o sorvete sem falar uma palavra. Não entendi seu silêncio.

Achei que você não se importaria com o que diziam de mim, mas você esperava mais. E eu não podia ser livre, não podia ser mulher. Você passou a me dizer pra evitar o batom vermelho porque chama atenção, depois um par do sapato sumiu misteriosamente, depois começou a criticar minhas roupas sempre curtas, reclamava de minhas histórias repetidas.

Seu sorriso mudo deu lugar a um tom sério e uma porção de regras. Você não era mais meu fã, queria ser meu dono.

16.07.21





Ato Falho



Eu quero me despedir porque meu coração ama. Falamos sobre sexo, eu e minhas amigas e a saudade ficou na minha boca. Mas não era qualquer saudade, era a dela.

Minha família não via com bons olhos porque minha vida era diferente da maioria das mulheres,  mas para eles isso era pior que ser prostituta. Abrir as pernas para os homens é natural, mesmo que seja antes dos 18.

Eu ainda tinha 20 e sempre tinha um tio pra perguntar pelos namoradinhos em toda festa. Eu não dizia nada e estendia o braço pra pegar o arroz refogado da ceia. As pessoas falavam, vigiavam e isso chegou ao ouvido de painho. Sai de casa porque não tinha outra opção.

Eu a observava de longe, escolhi esperar, mas há coisas que sonhamos tanto que a realidade não parece dar conta. Mas eu queria ir um pouco mais fundo e consegui um encontro com aquela mulher de 30 anos. Era uma distância de mais de 10 anos de vidas, mas uma distância minima entre os corpos. Eu tinha medo de não ser suficiente, mas eu tinha vontade.

Nossos corpos colidiram e se fundiram. Era nosso acordo, viver o agora. Nossas mentes já não podiam fazer o mesmo. Ela  durou o tempo necessário para tornar todas as histórias de amor irrelevantes. 

O abraço dela era uma toca pra onde eu poderia fugir. Entreguei-me aquele desejo. Seu corpo quente em cima do meu, seu beijo na minha boca, lento, molhado, sentido. Seu cheiro é de mulher, sua boca de ameixa sendo chupada por meus lábios e suas palavras nos meus ouvidos faziam meus músculos se contraírem.

Não conseguiria sair dali sem isso. Ao menos não queria. Porque me segurei por meses pra não bater na porta dela e sentir seu cheiro único, ouvir suas mágoas e reclamações porque eu não soube amar sua alma, mas amei seu corpo. Amei como nunca amei nenhum outro.

Tirei sua roupa lenta pra gravar aquelas curvas na minha memória. Eu não me importei na hora com quem ela estava, naquele momento éramos uma da outra. O toque riscava fogo, sua pele macia deslizava tão bem entre meus dedos.

Pensei em devorá-la de pronto, tão forte era meu desejo,mas ela me pediu pra não ter pressa. Peguei seus seios e os segurei com uma mão, enquanto minha boca beijava seu pescoço. Sua carne era quente, havia líquidos por toda parte, joguei os travesseiros pra fora da cama, a virei de frente pra mim e a fudi como nunca havia desejado tanto antes.

Seu gemido sendo sussurrado em meu ouvido aumentava meu desejo. Coloquei-a de costas pra mim, era bom guiar, e a fudi por trás enquanto seus braços alcançavam a parede e seu cabelo tocava meu rosto. Ela vestia sempre uma lingerie diferente, como se eu fosse achar ruim de ver sempre a mesma, quando sem calcinha, sua bunda realçava suas curvas, sua cintura, seus seios, sua buceta cabia exatamente na minha boca. Seu clitóris estava maior. Gozava. Apagamos a luz, porque o tempo infelizmente não para, e virava sempre pro lado esquerdo porque tinha mania, passava seu corpo encostado ao meu e como quem não se saciava, vinha pra cima de mim provar do meu sexo enquanto me beijava á boca.

 Procurei a água que ficava sempre ao lado da cama, encontrei água em seu corpo. Amanheceu indefesa, meus olhos sorrindo pro amor. Começamos tudo outra vez e nos deixamos cair, cansadas. Não lembro quanto tempo durou aquele momento, mas ficou na minha cabeça pra sempre. Eu tinha me feito mulher, não por um pau, mas por uma mulher .

Os dias continuaram, eu queria voltar a ser quem eu era quando nos encontramos naquela mesa de bar pra dividir uma cerveja enquanto eu sentia que ela iria embora, se não na hora,mas em meses. Depois me despedi porque ainda a amo e isso me escapuliu da boca.



Adeus

 Eu nunca lidei bem com despedidas. Até já tinha visto várias. Lembro durante  a adolescência que eu assistia a um programa em que as pessoas se despediam de suas pessoas amadas num aeroporto e aquilo sempre me intrigou. Não sei se pela forma sincera, de frente, com lágrimas, com dor.

As suas despedidas sempre me doeram muito, depois de um tempo entendi que não era por sua ida, era por sua forma. Eu ficava guardando o que te dizer, queria te convencer a ficar, mas cada dia era uma véspera de partida.

Você não sabia ficar, só sabia ir. Eu me dispunha toda vez porque acreditava que dessa vez era diferente. Suas palavras tinham tanta convicção.

-você acha que eu falaria isso se eu não quisesse estar com você? 

ESTAR COM VOCÊ, pra mim aquilo era um eco no meu coração. Alguém queria estar comigo. Eu era o bastante para alguém ficar. Eu rezava porque você me fez acreditar ser possível. Eu te agradecia porque eu não acreditava sentir.

Os dias foram se passando com você me ligando de surpresa, mandando mensagem no meu celular todo dia ás 8h pontualmente, eu sorrindo com aquele "bom dia", a gente fazendo planos de ir á praia todo domingo, mas a gente acordava tarde, fazia amor e esquecia que a praia existia, mas prometíamos ir domingo que vem. De tarde, você me chamava pra andar sem rumo, eu sempre tive medo de moto,mas eu achava bom porque assim segurava na tua cintura.

Dessa vez, A despedida foi ficando cada vez mais longe. Eu procurava no céu da boca as melhores palavras pra te contar como minha vida mudou depois que você chegou e ressignificou meu domingo, contando minhas histórias tristes de amores passados que não souberam me amar. A gente inventava línguas, ríamos de coisas que só a gente entendia, brincava de mesóclises, você dizia que eu era ao contrário de tudo que já tinha visto antes. Que meus pés traçavam as linhas do caminho, mas seus pés não quiseram percorrer por ele.

Você dizia que me amava. você gravou minha inicial em uma fonte do amor que visitamos numa cidadezinha que passamos. Não achei aquilo brega, deixei nossos nomes,mas você deixou nossa história. De repente, não te vejo mais, não teve despedida, não teve seu rosto aquecendo minha bochecha, não teve seu adeus. 

Eu tive que inventar em mim uma história diferente pra nós dois.  Uma cena de poucos minutos que doesse menos que a realidade. Talvez essa história fosse a mais incompreendida daquele programa de televisão. 


A gente sempre sabe

Sempre desejei uma vitrola. Quando eu era criança lembro que meu pai havia me dado uma. Colocava meus discos infantis, sentava em frente a ela e sorria feliz com cada nota entonada. A música sempre esteve presente na minha vida. Antes de você, tudo era uma sequência aleatória de notas com uma melodia bonita.

Antes de você eu não entendia nada. Não dava sentido aquelas letras.

Hoje pensei muito em você. Lembrei de todos os seus detalhes, até mesmo das sardas nas bochechas e do peito peludo. Lembrei de como você fechava o olho quando sorria. Meu sofá duro e velho me fez pensar na sua roupa, inspirada em alguma celebridade da moda. Não combinava com você,mas eu te acharia lindo de todas as formas. 

Você foi a minha surpresa mais inesperada, porque quando percebi eu tava olhando seu corpo, admirando seu cabelo baixo e crespo, imaginando como seria seu pau em mim e aquilo me assustou por um instante. Sim, eu também não sabia que eu era bissexual, já você não sei o que achava de mim.

Eu havia me apaixonado por outros meninos sim, mas você não era mais um de muitos. Eu tinha paixonites por uns caras que tocavam bateria, não sei se eu queria ser como eles, se era só admiração. é tão fácil perder o ritmo certo. Eu via a Aline, a Clara e a Juliana sentarem no seu colo na praça.

Queria te tirar dali e te convidava pra ouvir o novo LP de Madonna comigo.Eu sabia que você se amarrava e queria ter também uma vitrola e a gente dançava" I made it through the wilderness Somehow I made it through Didn't know how lost I was Until I found you" . até cair exaustos na cama. Você então tirava a camisa se jogando na cama. Eu respirava perto dela pra gravar teu cheiro. Mas eu sei, você sabe, todo mundo sabe, só finge não saber.

Foi num desses encontros sob pretexto de ouvir música que a gente quase se beijou. Você já tava de namorico com a Clara. Você não sustentava o que sentia, eu não sustentaria apenas amizade. E nesse desencontro você partiu e me deixou ouvindo a última música sozinho. Eu não sei onde você está, eu mal sei onde eu estou.

Vez ou outra você volta pra bagunçar. Demorei meses para entender porque seu retorno sempre mexia tanto comigo. Quando eu repetia pros amigos que sabiam,mas fingiam não saber, que sua ausência não era mais sentida, seu sms chegava e engolia minhas palavras. Na última vez em que foi embora, você disse que eu sempre havia me entregado a você da mesma forma que antes. Percebi que isso não era um elogio, era apenas minha ausência de mim sendo exprimida por você. Você era fuga. 

A forma lenta daquelas palavras na minha cabeça.  Uma ausência tão grande.


Intensa

 Sempre admirei a intensidade. IN.TEn.Si.DA.DE. Eu não tinha noção do que essa palavra significava. E quando você aprende a ler ainda não consegue entender direito o significado das palavras, isso só vem com os anos. Se eu não era bonita nem suficiente pra Marcelo, nem pra Lucas, nem pro João, talvez fosse pra você. De uma hora pra outra minhas histórias de amor eram só enganação.

Ainda lembro de quando você se despediu, não me olhou direito porque com os olhos é que se ignora, mas agradeceu porque eu sempre estive aberta e me entreguei com a mesma intensidade que das outras vezes. Achei que era elogio, no fim era apenas mais um sintoma. Percebi que faltava alguma coisa nessa minha casa revirada, bagunçada e saqueada por você. 

Pensei por muito tempo o que faria. Amaldiçoei minha mãe, gritei comigo mesma, expurguei toda a dor. Quis matar toda a intensidade em mim, mas a verdade menos açucarada é a de que faltava cor, faltava vida, faltava eu mesma. Olhei pro cantinho que tinha em casa, coloquei mais terra, colhi umas flores pela vizinhança e plantei meu jardim. Cada flor tem um pedaço meu que morreu e renasceu; cada folha podada um lado desconhecido, retirado, moldado, arrancado, recuperado; cada folha que cai uma expectativa tolhida.

Fiquei sentada no chão ao lado do jardim. Eu quis logo chorar pra gastar a raiva. Eu odeio o que tenho de mais bonito. Talvez esteja condenada a viver sozinha com minhas flores, mas já não falta mais a mim e é nesse instante que reconheço quem sou.

Tatuagem

 Eu não sei nem quando fantasiei que éramos iguais. Apesar de ter estudado na mesma escola e frequentar o mesmo centro espírita, a gente era tão diferente que parecíamos dois extremos. Meus amigos perceberam logo, disseram pra eu não dar moral e ir com calma. Descobri depois que você não gostava deles, nem foi difícil descobrir, você mesmo me falou. 

Eu não sei se era ciúmes de mim ou inveja porque você não tinha amigos. Eu me equilibrava na corda bamba que você colocou desde muito cedo. "Não gosto disso", "não aceito aquilo" e eu me entortava toda pra poder andar na linha. Na sua linha porque era a linha que eu achava que era a certa a seguir.

Olhava pro relógio, aguardava ansiosa tua hora de chegar. Você era sempre pontual, depois foi atrasando 20 minutos, uma hora, até que sumiu. Seu incômodo era grande e pequeno demais. Um pelo do gato, um favor negado, uma mensagem apagada...e você enfim admitia que a gente era muito diferente, mas eu ainda teimava que não.  

Eu tinha um costume danado de fechar os olhos pra tudo, fechei pro teu beijo molhado e fechei pros teus defeitos escancarados. Eu tinha uma caixinha de ouvir música no quarto, você dizia que ouviu uma música e lembrou de mim. Você dizia que Ana Carolina já tinha passado, eu dizia que Renato Russo já tinha passado pra mim, eu mostrei minha tatuagem com a música dela e você mostrou a sua tatuagem com a música dele. A dele tava certa: minha, só minha e não de quem quiser. Aquela letra tinha tudo a ver com você.

Queria que você tivesse sido meu, mas a gente era muito diferente.

A gente ouvia sempre as mesmas músicas, do mesmo jeito. Um vinho na frente, o corpo colado e a caixinha tocando baixo. Você relava seu corpo em mim, me olhava, encostava o lábio no meu e eu tinha a iniciativa de beijar primeiro.

pena que a gente era muito diferente.

Eu achava tudo tão lindo. Acreditava mais no que ouvia que no que via. Eu tinha esse costume danado de fechar os olhos pra tudo. Eu dizia que você gostava de mim porque você me confundia. Você dizia que um dia a gente estaria na praia, cada um lendo um livro á beira-mar e os meus olhos fechavam sonhando com isso.

Até que um dia meus olhos abriram. Quando vi você era projeção. Não sei quando você começou a desistir, mas eu achei melhor também deixar pra lá. Chorei por dias trancada no quarto, a dor de enxergar é muito maior que a de se estar cega. Ligava a caixinha em casa e imaginava passando a mão em seus cabelos longos. Foi passando o tempo. Percebi que nenhuma linha nos ligava a não ser a minha teimosia. Você não gostava de falar, você não gostava de pessoas, você não gostava de namorar, você não era nada do que me dizia ser. A diferença era muito grande. Enxerguei. 

 "Quando quiser entrar e encontrar o trinco trancado
Saiba que meu coração é um barraco de zinco todo cuidado."  (Vander Lee)
 
Além do Nosso Espelho © 2015 | Criado Por Aline Lima