Minha tristeza é falsa; basta uma palavra pra se desfazer em risada.
Aline Lima
Minha tristeza é falsa; basta uma palavra pra se desfazer em risada.
Aline Lima
Meu lugar era um quartinho no fundo da casa. Não tínhamos banheiro. Pela manhã, ela pegava o penico embaixo da cama, e despejava no vaso que ficava próximo à cozinha. Todas as manhãs, o penico estava lá mostrando o nosso lugar. Eu não achava ruim, até me acostumei a espaços pequenos, toda comunicação era feita na porta do quartinho. Qualquer pessoa colocava a cabeça na porta e falava o que queria. A entrada era restrita , mas não havia placa de proibido entrar pendurada, mas uma barreira simbólica que só percebi anos depois.
De vez em quando eu ia pra restaurantes caros, comia ate MacDonalds, mas só não era melhor que os passeios à praia aos domingos. Minha mãe levava o balde e eu ficava fazendo conchinha de areia pra esquecer meu medo do mar. Tinha também os passeios pro trabalho dela, em que eu ficava rodando na cadeira giratória e fantasiava que eu era alguma empresária importante que só dava ordens.
Enquanto isso minha mãe estava em casa. O quartinho era só pra dormir e trocar de roupa. Devia estar na cozinha lavando louça ou limpando os banheiros. Ela fazia tudo sozinha: Colocava as crianças pra escola, ajeitava o almoço, fazia compras, lavava roupa e todo tipo de sujeira. Eu fui crescendo achando que minha mãe era babá porque ela que colocava as mochilas nas costas e segurava os meninos pelas mãos pra levar à escola.
Uma vez recebi na escola um gesso com uma foto dela no dia das mães, fiquei sem entender porque trocaram de mãe e colocaram a babá. Aquele povo da escola era mesmo doido, mas por que eu dormia no quarto fora se todo mundo tinha quarto dentro?
Minha mãe dormia todo dia lá, eu achava que era porque a mãe dela não gostava dela porque ela me teve. Eu nem sabia o nome da minha avó, só lembro que ela quis bater na minha mãe quando ela me levou pra conhecê-la. Nunca entendi o porquê, mas também nunca entendi por que no meu registro de nascimento não tinha o nome do meu pai sendo que eu o via todo dia. Não entendia porque eu tinha que pedir e até chorar pra comer Nissin miojo ou bolacha recheada, enquanto meu irmão só abria o pacote, em frente ao televisor assistindo cavaleiros do zodíaco.
Minha mãe me dava presentes e ensinava a tarefa, a outra me forçava a comer e me colocava pro colégio. Era fácil gostar da primeira porque a segunda ficava só com a parte chata...
Crescer foi a parte mais difícil dessa história, mas inevitavelmente aconteceu. O joelho sempre ralado se tornou meu menor problema, porque o coração estara arranhado sempre. Tive que entender meu lugar nesse quartinho que já não suportava minha imensidão de ser....
Revisito esse quartinho sempre que algo vem me avisar de que ele existiu. Da memória ele nunca saiu...Está lá pra lembrar de onde vim e pra onde não fui.
Não sinto falta de quase nada em vocÊ. Só de quando recebia uma música que tu ouvia no rádio e lembrava de mim. A playlist agora está vazia. Esvaziei todos os locais que ainda tinha uma parte tua. Não foi fácil,mas foi preciso. Ainda assim tem sempre aquele desavisado que, sem querer, manda uma mensagem tua pelas invisíveis linhas daqueles que se perderam. Ainda assim tem sempre uma parte tua, que finjo não ver e varro pras sombras do meu inconsciente enquanto me repito todos os dias que não era pra ser.
Ainda assim sinto falta. Sinto falta do sábado à tarde e da sensação de euforia que eu ficava com tua chegada. vocẽ não vinha por inteiro, havia sempre um pretexto para ir, um olhar de observação em que me avaliavas sem eu perceber, porque os meus olhos eram de entrega, os teus de defesa.
Ainda assim lembro da tua alegria em conhecer algo novo, um lugar, uma palavra, uma música e eu me sentia naquele lugar de importância que tentamos voltar desde que saímos da infância. Lembro da primeira noite, das lágrimas de alegria, dos presentes cujo valor eu supervalorizava, dos planos que pra mim eram reais, e nem percebia no abismo que havia entre eles, eram como duas estradas que não se cruzariam nunca.
Sinto falta da tua admiração estampada no rosto, que deixava claro que nenhuma mulher era mais especial e única que eu, e se desfazia quando lembrava que mesmo assim vocÊ insistia em colocar muitas na nossa história. Sinto falta do teu interesse em tudo que eu falava e o total convencimento de que não havia ninguém com palavras mais sábias, e eu sentia que toda palavra que me foi calada, estava sendo consentida ali e me cabia usufruir do espaço.
Sinto falta do teu toque delicado, tua carícia arrastando meu cabelo pra detrás da orelha, do beijo que meu corpo não estranhava, que me cabia e encaixava como se sempre só a tua boca eu houvesse beijado. Mas não...tentei beijar outras pessoas, algumas queriam algo mais, mas em nenhuma eu via teu rosto. Ainda bem.
Ainda tem um cheiro teu aqui num objeto que nem sei mais onde está. Escondi para tua lembrança não ficar me assombrando. Mesmo assim não sinto falta de quase nada em você. Só de quem eu achei que vocÊ era.
14.03.22
Há muito mistério na simplicidade. Quando criança, a primeira vez que o vi tinha uns 6 anos, imponente, misterioso, grande. Sabia que eu e ele estaríamos misturados, depois houve muitos encontros só nossos. Era sempre na casa de praia da minha mãe durante as férias, depois passou a ser com frequência aos sábados sozinha.
Ele me provocava uma espécie de encanto. Aquelas ondas, aquela abundância, aquela luz à noite que o adormecia enquanto a vida continuava a acontecer. Muito, mas muito depois percebi que havia muito do mar em mim.
Há os que chegam apenas na beira, molham os pés, querem ir até a cintura,mas não conseguem.
Há os que nem se atrevem, olham com temor, talvez temem serem afogados.
Há os que contemplam com ternura, admiração, expressam uma lágrima quando são contemplados com a beleza inerente a ele.
Há os que velejam, adentram, se arriscam a conhecer seus mundos, suas pérolas, pegam sempre algo para si e deixam sempre algo quando vão embora
Há os que se despem, mergulham, enxergam através da água turva remexida da areia, dançam nas ondas, beijam a areia, agradecem a oportunidade de estar.
e eu de amar.
sou
me pergunto agora
que não sabe ser
que voltou a ser
que tenta aprender
Que mulher que
sou
quando todos riram
e meu espelho não soube responder
Que mulher que
sou
quando vejo ela
e tento entender
Que mulher que
sou
misturada
marcada
silenciada
desejada
Que mulher que sou
Sou mulher pra você?
Nasci prematura
de tamanho e afeto
fui enchendo aos poucos
nas pernas
na cintura
nos braços
nos abraços
me refiz
e cresci
procurando respostas
achei as mais difíceis.
A palavra é como rio
ora enche
ora seca
ora se vai
ora me pega
Por entre minhas mãos
ela escorre
por entre meus olhos
ela se esconde
e em vão tento entendê-la.
"Há quem use a literatura, há quem viva a literatura."
Eu preciso falar de quando meu tempo era todo teu? Olho o relógio, são 19h de uma sexta á noite. O horário dos apaixonados. Esperava tua chegada toda sexta por essas horas. O final de semana seria todo nosso. Comecei a me acostumar com essa nossa rotina.
O tempo não costuma gostar de rotinas. Eu observo minha jiboia em cima da geladeira e quando você chegou ela não tinha nem cinco folhas ainda. As promessas, antes de se perder no tempo, se perdem nas palavras.
Fechei a porta para nos proteger dos olhares dos outros. O cheiro do seu cabelo provocava meu piercing no nariz e era melhor que qualquer cheiro em qualquer bar, ao menos pra mim. A gente festejava a vida em plena segunda-feira á noite, ignorando tudo lá fora.
Desde o primeiro sorriso que te dei, entre cheiros etílicos, eu sabia que eu me enrolaria nos panos de nossa história, eu só não sabia que seria tão difícil assim me desvincilhar. As tardes passavam sempre devagar deitados na rede, enquanto você massageava meu pé, me fazendo me sentir uma rainha em alta soberania.
Eu não costumava exigir muito então isso já me era tão suficiente que eu dizia obrigada a qualquer gesto seu. De repente, algo mudou e tudo isso passou a ser tão pouco. Eu queria tua presença nem que fosse de vez em quando, para me aquecer de madrugada ou tua ligação em qualquer horário do dia. Eu queria saber do teu dia porque estar contigo só era pouco pro meu desejo.
De repente, meus desejos eram cobranças. E tu,já meio cansado, me respondia com duas palavras atravessadas: preciso dormir e eu ficava com uma ausência. Uma ausência tão grande. Os dias continuaram e eu insistia em fazer parte da tua vida, já tu, fazias malabarismos para fazer parte da minha. O sentimento de, pela primeira vez, enxergar o que não via. Exigir do outro o que ele não pode me dar é minha via crucis.
Peguei os diários que eu escrevia. Contei quantas vezes teu nome se repetiu. Naquele momento aprendi mais uma lição. Não estava certa disso, por isso ponderei. Rasguei as folhas e fiz uma fogueira. As chamas não foram tão altas assim, mas dentro de mim uma brasa se acendeu.
Sai de casa andando, sendo assistida pelas crianças brincando de pega pega na rua, pelos carros, pelos vizinhos, comecei a correr. Eu pensei no que seria. Uma voz que me pedia. E então compreendi outra coisa: Se apegar ao seu eu destruído é muito mais comum que pensam.
Voltei para casa e vi quinze chamadas perdidas. Todas suas. Desliguei o celular e joguei na fogueira junto com as folhas. As pequenas labaredinhas cumpriram seu papel. Eu já não estava sozinha, estava comigo.
23.07.2021
Eu estava sentada na calçada. Você passava segurando seu cachorro filhotinho e sorria pra mim. Ali era o início de uma história que achei que contaria aos nossos netos. Mas a vida tem caminhos desiguais. Não duramos nem uma década. Já anuncio logo o fim, porque a minha vida toda foi de expectativas.
Do sorriso até o pedido de namoro demorou um tempo. Você ficava sempre desconfiado,não sabia exatamente se era só simpatia, todo mundo com baixa autoestima sente isso. Se sentir especial e desejado parece inalcançável. Mas você tinha coragem. Eu achei que tinha. Depois disso,você me chamou pra comer cachorro quente na praça e nem temia que todos da cidade veriam e falariam que a filha de Zé Correia, mal falada porque foi pega pulando a janela da casa do Seu Pedro da padaria, estaria fazendo mais uma vítima.
sempre foi duro ser mulher, mas ser mulher em cidade pequena parece que é muito mais.
você tinha uma franja grande que cortava seu rosto e deixava só um olho aparecendo. Um olho puxado que a gente não sabia bem quando tava aberto, porque fechava ao sorrir. Você vivia assim de rir de minhas piadas, de minhas histórias de quando passei um tempo no sítio da minha avó e colocava carrapicho na cama para assustar a velha, ou quando ria da catinga dos porcos no quintal com quem eu brincava até cansar ou quando comia tanto pequi que me dava dor de barriga.
Você era meu maior fã. E como todo fã espera muito do ídolo.
Eu não tinha muito a te oferecer, mas tinha minha alegria. Você passou a me levar aos passeios com seu cachorro. Perdia-o de vista porque não desgrudava os olhos dos meus. Eu acho que gostava mais da atenção que você me dava que de você.
Não era muito de falar, mas você era meu melhor ouvinte. Passávamos as tardes na minha casa assistindo. Eu apontava pra televisão de tubo e dizia que queria ser igual aquela atriz, a do cabelo liso de luzes. Você ria e dizia que eu era mais bonita.
Todos da cidade olhavam, falavam. Diziam que eu queria dar o golpe da barriga. Você não era rico,mas seu pai trabalhava no banco e isso já era maior que a renda da minha família inteira. Mas eu não me importava com o que você tinha. Nossos olhos se entendiam.
Você me deu um presente no meu aniversário. Um salto alto igual ao da atriz da televisão. Coloquei um batom vermelho, o salto e você me levou pra tomar sorvete á noite na praça. Eu estava tão bonita. Um menino me empurrou, me chamou de prostituta, e você ficou calado. Tomei o sorvete sem falar uma palavra. Não entendi seu silêncio.
Achei que você não se importaria com o que diziam de mim, mas você esperava mais. E eu não podia ser livre, não podia ser mulher. Você passou a me dizer pra evitar o batom vermelho porque chama atenção, depois um par do sapato sumiu misteriosamente, depois começou a criticar minhas roupas sempre curtas, reclamava de minhas histórias repetidas.
Seu sorriso mudo deu lugar a um tom sério e uma porção de regras. Você não era mais meu fã, queria ser meu dono.
16.07.21
Eu nunca lidei bem com despedidas. Até já tinha visto várias. Lembro durante a adolescência que eu assistia a um programa em que as pessoas se despediam de suas pessoas amadas num aeroporto e aquilo sempre me intrigou. Não sei se pela forma sincera, de frente, com lágrimas, com dor.
As suas despedidas sempre me doeram muito, depois de um tempo entendi que não era por sua ida, era por sua forma. Eu ficava guardando o que te dizer, queria te convencer a ficar, mas cada dia era uma véspera de partida.
Você não sabia ficar, só sabia ir. Eu me dispunha toda vez porque acreditava que dessa vez era diferente. Suas palavras tinham tanta convicção.
-você acha que eu falaria isso se eu não quisesse estar com você?
ESTAR COM VOCÊ, pra mim aquilo era um eco no meu coração. Alguém queria estar comigo. Eu era o bastante para alguém ficar. Eu rezava porque você me fez acreditar ser possível. Eu te agradecia porque eu não acreditava sentir.
Os dias foram se passando com você me ligando de surpresa, mandando mensagem no meu celular todo dia ás 8h pontualmente, eu sorrindo com aquele "bom dia", a gente fazendo planos de ir á praia todo domingo, mas a gente acordava tarde, fazia amor e esquecia que a praia existia, mas prometíamos ir domingo que vem. De tarde, você me chamava pra andar sem rumo, eu sempre tive medo de moto,mas eu achava bom porque assim segurava na tua cintura.
Dessa vez, A despedida foi ficando cada vez mais longe. Eu procurava no céu da boca as melhores palavras pra te contar como minha vida mudou depois que você chegou e ressignificou meu domingo, contando minhas histórias tristes de amores passados que não souberam me amar. A gente inventava línguas, ríamos de coisas que só a gente entendia, brincava de mesóclises, você dizia que eu era ao contrário de tudo que já tinha visto antes. Que meus pés traçavam as linhas do caminho, mas seus pés não quiseram percorrer por ele.
Você dizia que me amava. você gravou minha inicial em uma fonte do amor que visitamos numa cidadezinha que passamos. Não achei aquilo brega, deixei nossos nomes,mas você deixou nossa história. De repente, não te vejo mais, não teve despedida, não teve seu rosto aquecendo minha bochecha, não teve seu adeus.
Eu tive que inventar em mim uma história diferente pra nós dois. Uma cena de poucos minutos que doesse menos que a realidade. Talvez essa história fosse a mais incompreendida daquele programa de televisão.
Sempre desejei uma vitrola. Quando eu era criança lembro que meu pai havia me dado uma. Colocava meus discos infantis, sentava em frente a ela e sorria feliz com cada nota entonada. A música sempre esteve presente na minha vida. Antes de você, tudo era uma sequência aleatória de notas com uma melodia bonita.
Antes de você eu não entendia nada. Não dava sentido aquelas letras.
Hoje pensei muito em você. Lembrei de todos os seus detalhes, até mesmo das sardas nas bochechas e do peito peludo. Lembrei de como você fechava o olho quando sorria. Meu sofá duro e velho me fez pensar na sua roupa, inspirada em alguma celebridade da moda. Não combinava com você,mas eu te acharia lindo de todas as formas.
Você foi a minha surpresa mais inesperada, porque quando percebi eu tava olhando seu corpo, admirando seu cabelo baixo e crespo, imaginando como seria seu pau em mim e aquilo me assustou por um instante. Sim, eu também não sabia que eu era bissexual, já você não sei o que achava de mim.
Eu havia me apaixonado por outros meninos sim, mas você não era mais um de muitos. Eu tinha paixonites por uns caras que tocavam bateria, não sei se eu queria ser como eles, se era só admiração. é tão fácil perder o ritmo certo. Eu via a Aline, a Clara e a Juliana sentarem no seu colo na praça.
Queria te tirar dali e te convidava pra ouvir o novo LP de Madonna comigo.Eu sabia que você se amarrava e queria ter também uma vitrola e a gente dançava" I made it through the wilderness Somehow I made it through Didn't know how lost I was Until I found you" . até cair exaustos na cama. Você então tirava a camisa se jogando na cama. Eu respirava perto dela pra gravar teu cheiro. Mas eu sei, você sabe, todo mundo sabe, só finge não saber.
Foi num desses encontros sob pretexto de ouvir música que a gente quase se beijou. Você já tava de namorico com a Clara. Você não sustentava o que sentia, eu não sustentaria apenas amizade. E nesse desencontro você partiu e me deixou ouvindo a última música sozinho. Eu não sei onde você está, eu mal sei onde eu estou.
Vez ou outra você volta pra bagunçar. Demorei meses para entender porque seu retorno sempre mexia tanto comigo. Quando eu repetia pros amigos que sabiam,mas fingiam não saber, que sua ausência não era mais sentida, seu sms chegava e engolia minhas palavras. Na última vez em que foi embora, você disse que eu sempre havia me entregado a você da mesma forma que antes. Percebi que isso não era um elogio, era apenas minha ausência de mim sendo exprimida por você. Você era fuga.
A forma lenta daquelas palavras na minha cabeça. Uma ausência tão grande.
Sempre admirei a intensidade. IN.TEn.Si.DA.DE. Eu não tinha noção do que essa palavra significava. E quando você aprende a ler ainda não consegue entender direito o significado das palavras, isso só vem com os anos. Se eu não era bonita nem suficiente pra Marcelo, nem pra Lucas, nem pro João, talvez fosse pra você. De uma hora pra outra minhas histórias de amor eram só enganação.
Ainda lembro de quando você se despediu, não me olhou direito porque com os olhos é que se ignora, mas agradeceu porque eu sempre estive aberta e me entreguei com a mesma intensidade que das outras vezes. Achei que era elogio, no fim era apenas mais um sintoma. Percebi que faltava alguma coisa nessa minha casa revirada, bagunçada e saqueada por você.
Pensei por muito tempo o que faria. Amaldiçoei minha mãe, gritei comigo mesma, expurguei toda a dor. Quis matar toda a intensidade em mim, mas a verdade menos açucarada é a de que faltava cor, faltava vida, faltava eu mesma. Olhei pro cantinho que tinha em casa, coloquei mais terra, colhi umas flores pela vizinhança e plantei meu jardim. Cada flor tem um pedaço meu que morreu e renasceu; cada folha podada um lado desconhecido, retirado, moldado, arrancado, recuperado; cada folha que cai uma expectativa tolhida.
Fiquei sentada no chão ao lado do jardim. Eu quis logo chorar pra gastar a raiva. Eu odeio o que tenho de mais bonito. Talvez esteja condenada a viver sozinha com minhas flores, mas já não falta mais a mim e é nesse instante que reconheço quem sou.
Eu não sei nem quando fantasiei que éramos iguais. Apesar de ter estudado na mesma escola e frequentar o mesmo centro espírita, a gente era tão diferente que parecíamos dois extremos. Meus amigos perceberam logo, disseram pra eu não dar moral e ir com calma. Descobri depois que você não gostava deles, nem foi difícil descobrir, você mesmo me falou.
Eu não sei se era ciúmes de mim ou inveja porque você não tinha amigos. Eu me equilibrava na corda bamba que você colocou desde muito cedo. "Não gosto disso", "não aceito aquilo" e eu me entortava toda pra poder andar na linha. Na sua linha porque era a linha que eu achava que era a certa a seguir.
Olhava pro relógio, aguardava ansiosa tua hora de chegar. Você era sempre pontual, depois foi atrasando 20 minutos, uma hora, até que sumiu. Seu incômodo era grande e pequeno demais. Um pelo do gato, um favor negado, uma mensagem apagada...e você enfim admitia que a gente era muito diferente, mas eu ainda teimava que não.
Eu tinha um costume danado de fechar os olhos pra tudo, fechei pro teu beijo molhado e fechei pros teus defeitos escancarados. Eu tinha uma caixinha de ouvir música no quarto, você dizia que ouviu uma música e lembrou de mim. Você dizia que Ana Carolina já tinha passado, eu dizia que Renato Russo já tinha passado pra mim, eu mostrei minha tatuagem com a música dela e você mostrou a sua tatuagem com a música dele. A dele tava certa: minha, só minha e não de quem quiser. Aquela letra tinha tudo a ver com você.
Queria que você tivesse sido meu, mas a gente era muito diferente.
A gente ouvia sempre as mesmas músicas, do mesmo jeito. Um vinho na frente, o corpo colado e a caixinha tocando baixo. Você relava seu corpo em mim, me olhava, encostava o lábio no meu e eu tinha a iniciativa de beijar primeiro.
pena que a gente era muito diferente.
Eu achava tudo tão lindo. Acreditava mais no que ouvia que no que via. Eu tinha esse costume danado de fechar os olhos pra tudo. Eu dizia que você gostava de mim porque você me confundia. Você dizia que um dia a gente estaria na praia, cada um lendo um livro á beira-mar e os meus olhos fechavam sonhando com isso.
Até que um dia meus olhos abriram. Quando vi você era projeção. Não sei quando você começou a desistir, mas eu achei melhor também deixar pra lá. Chorei por dias trancada no quarto, a dor de enxergar é muito maior que a de se estar cega. Ligava a caixinha em casa e imaginava passando a mão em seus cabelos longos. Foi passando o tempo. Percebi que nenhuma linha nos ligava a não ser a minha teimosia. Você não gostava de falar, você não gostava de pessoas, você não gostava de namorar, você não era nada do que me dizia ser. A diferença era muito grande. Enxerguei.
Aquilo me caiu como uma bomba. Não sabia o que fazer com aquela informação. Tentei correr, mas não tinha pra onde, até pensei em correr sem rumo, mas o que diriam as pessoas que me vissem? tinha endoidado, por certo.
Achei melhor ficar parada. Peguei um livro. -vou distrair a cabeça. Pensar em outra coisa. As histórias se cruzaram, minha cabeça deu um nó e as letras saltavam da página formando a palavra: culpada!!!
Fechei o livro meio atordoada. A cabeça a mil, pensamentos que não faziam sentido.- Era sintoma, era sintoma, eu repetia pra mim mesma. Peguei o carro, as lágrimas começaram a descer descontroladamente. Parei na primeira padaria perto, pra meu azar tinha um conhecido lá, enxuguei as lágrimas, sorri-lhe educadamente, torcendo que ele não me puxasse assunto.
Comprei a maior quantidade de pães e bolos e salgados que pude. Voltei pra casa e comi vorazmente. Como uma espécie de antropofagia, queria que cada tristeza minha ficasse em cada grama de farinha que ingeri. A dor não passou.
Aquela sensação de que eu não sabia o que fazer com esse vazio, eu não sabia mais quem eu era. Funcionei errado até aqui. Esse funcionamento meio desconhecido, meio atropelado, meio doentio era responsável por tantos fracassos e tanto desamor e tanto ressentimento. Pensei nas pessoas feridas, pensei nas minhas dores arrastadas por meses.
Pensei em desistir de mim. Encontrar nos braços de Deus consolo pra essa dor incansável. Pensei em procurar um colo qualquer. Alguém que tapasse novamente esse buraco que descobri aqui dentro e não sei mais preenchê-lo.
Meu gato me olhou. Como quem entende ou tem pena das lágrimas que me caem incontrolavelmente, ele se achega, mia, se encosta em mim, balança seu rabo e apoia sua cabeça em minha mão. Queria fazer com alguém a mesma coisa que meu gato fez comigo. Queria um acolhimento qualquer, uma esperança que fosse, mesmo que não fosse verdade. Tudo que resta ali era eu.
O vazio continuaria.
Ignoro todas as pessoas que tentam falar comigo. Não me sinto mal por isso. Queria mudar de endereço, mudar de cidade, mudança que me trouxesse a resposta que procuro. Vou ao banheiro, olho minha cara refletida no espelho redondo, lembrança de um tempo bom. Tempo no qual todo meu vazio era desconhecido. Olho meu rosto e ele é um grande desagrado. As olheiras fundas da noite mal dormida, o lábio seco e o olhar abatido. Passo a mão nele, tento bate-lhe, mas a dor física não ameniza a dor que é por dentro. Caminhar é um grande cansaço. Meu corpo está entregue ao que não sei. Deito,mas não encontro posição que afaste o pensamento: - você é culpada!!!
Penso em rezar, mas pra qual deus? Que inferno de deus tão sádico era esse que iria querer que seu filho sofresse tanto? Desisto da ideia. Não é espiritual. Coloco uma música, um flashback internacional pra relembrar de quando esse vazio era desconhecido. Choro mais ainda. Onde foi que me perdi? ou será que agora que me achei?
Minha última alternativa era me dopar, mas a realidade não mudaria. A realidade é um teste maior. E não havia ninguém pra segurar meu corpo, caso eu me destruísse de verdade. Eu fazia o que sabia, o que ainda era muito pouco. Esvaziar-se parece uma punição.
Penso nas coisas que eu deveria pensar, mas não quero verbalizar. Cada sílaba carrega uma chicotada na alma e eu sou o capataz. Um atestado de culpa, uma lembrança feliz, agora o silêncio do meu quarto e a solidão parece castigo. Minha raiva foi adormecendo.
Enfim consigo dormir. No outro dia acordo. Tudo claro como um lembrete de que na mais alta escuridão ainda pode entrar luz. Consigo, então, compreender que minha irritação tenha sido algo maravilhoso. Era preciso morrer. Morrer é um presente divino. Na vida morremos repetidas vezes, o problema está em não renascer. Coloco agora a vírgula mais importante da minha vida, a que vai virar todo o rumo da história, mas isso pede fôlego puxado. Vir a saber do que eu não sabia sobre mim mesma é um desafio,mas é só através disso que podemos nos reposicionar, nos reconstruir, nos refazer. Imprimi folhas de possibilidades, todas que me levavam a mim mesma como caminho.
07.06.2021
Não lembro ao certo quando o vi pela primeira vez. Possivelmente ainda era Bebê ou não. Dizem que filho tem que cuidar dos pais na velhice, eu nunca acreditei nisso. Filho tem que crescer e voar....A gente não pede para nascer e já nasce com uma culpa enorme e não é apenas a cristã, é a de ser um peso na vida dos pais. Eles nunca na vida dormirão sem uma preocupação, sem saber aonde você tá, se comeu, com quem anda, se estuda, o que vai vestir....é um paraíso de preocupações. Há quem diga que também traz felicidades e até concordo que deva haver esses momentos, mas o que é a vida senão momentos de dúvidas, sofrimento, inseguranças, dores, na maior parte do tempo?
Quando eu nasci, vi logo o rosto da minha mãe, ela me enfeitava todo domingo para me levar á missa. Cumprimentava, vez ou outra, um homem vestido sempre de branco parado na porta. Ele me olhava, perguntava-a se tava me cuidando direito, quantos anos eu tava e ela me puxava pelo braço para voltarmos pra casa.
- Esse pateta sem futuro não pergunta nem se você tá precisando de leite!
Todo domingo a mesma coisa. Nos outros dias era só eu e ela. Quando eu me recusava a comer o almoço ou a xingava com raiva, ela dizia que eu puxei a ele. Aos poucos, fui entendendo que aquele homem de branco era meu pai.
Na minha cabeça de oito, pai e pateta eram sinônimos. Era tudo que eu sabia sobre paternidade. O universo masculino me era tão estranho quando ás questões de matemática que nunca dominei. Minha mãe nunca deixou faltar nada em casa, mas eu sabia que ela não tinha sobrando e o que meu pai não dava fazia falta; talvez como criança já compreendia isso, era fastiosa para comer ou era apenas desculpa para ir brincar de pega-pega na rua.
Depois de anos, aquele homem começou a visitar minha casa e sempre trazia uma caixa de biscoitos. Tinha com recheio, de leite, wafer, de todo tipo. Eu ficava no muro olhando e esperando a bicicleta de biscoitos chegar. Esses biscoitos não eram acompanhados de palavras, mas eu sabia que de certa forma era um gesto de pai. Anos depois, essa visita cessou. Até hoje não sei o porquê. Penso em todas as crianças que também não tiveram pai, cresceram desprotegidas, tentando achar um amparo. Desse jeito cresci e apesar disso consigo enxergar uma beleza infinita. Na falta.
Tive raiva já, hoje não. A minha vida continuou sem ele. Ainda o vejo andando na mesma bicicleta pelo bairro onde moro, mas já não sou mais a menina que espera pelo biscoito, sou a mulher que ele ajudou a nascer.
30.05.2021
10 anos depois decidi reescrever esse texto....pois mudei muito!quem não???
Não faço ideia de como isso se deu, na verdade faço sim, mas há coisas que preferimos varrer para um lugar pouco frequentado em nós. O que eu tinha era a ilusão de que dessa vez iria durar. Quando conheci Clara, foi rápido,mas o suficiente para eu ficar congelada, era a primeira vez que eu beijava uma mulher, então eu me sentia mal, era errado.
Lembrava de minhas memórias de adolescente e o que eu ligava á palavra lésbica. E não era nada positivo. Mas aconteceu e foi diferente de tudo que já havia experimentado antes. Clara me olhava, queria ficar comigo, até enfrentou a mãe, enquanto segurava minha mão, com cuidado como quem segura uma estrela do mar. Dizia que ficaríamos juntas para sempre. O tempo passou, fomos felizes, comendo pipoca enquanto assistia Mad man ou dançando é o tchan enquanto fazíamos faxina de madrugada.
Ela foi embora um tempo depois, não deve ter suportado, acompanhado que eu queria ir mais fundo na história, na minha história porque uma hora a gente cansa, se não de tédio,mas de morte.
Quis frequentar todos os lugares de mim, havia uma distância entre mim e ela, e não era de um metro e meio entre a cama e o sofá, era de anos de consciência. A única coisa que ficou de nós foi o sabonete no banheiro. Comecei a analisá-lo muito tempo depois, não sei se por saudade, costume, distração ou sintoma.
Depois os dias continuaram, conheci Giovana, achei que ela nunca iria embora. Suas palavras eram fortes, sua vontade era fraca. Começamos sabendo muito o que queria, era muita convicção em tão pouco tempo, mas eu já estava sem escolha. Percebi quando demorava minha atenção sob seu corpo, os cabelos castanhos e ondulados enrolados na toalha, um perfume que ficava grudado no travesseiro.
O meu problema foi acreditar demais nas suas palavras, em suas histórias turvas, não queria desconstruir a ilusão que eu tinha criado e isso me importava tanto. Acreditei até que ela tinha um banheiro favorito na minha casa. Mas o fim estava rápido e ele foi tão de repente que um ano depois, quando ela voltou, ainda achei que não houvesse tido fim. De novo, a única coisa que ficou foi o sabonete gasto no banheiro.
Quando Cris chegou, eu nem percebi direito. Ela foi entrando na minha casa, no meu quarto, na minha cama, na minha vida. os dias eram confortáveis, com direito a sentar na calçada pra olhar a vida passar, mas um furacão passou na rua e arrastou nossas cadeiras e agora a situação já não era mais confortável. Sua partida era urgente e forçada por mim.
Não me dei conta de quando ela levou o sabonete, mas ele estava ali também, naquele banheiro que eu mal entrava, a não ser quando era pra fugir enquanto ela corria para me puxar pela cintura e me beijar com a boca cheia de pasta de dente enquanto ria e se balançava.
Fiquei sentada no chão do banheiro nem sei quantas horas. Naquele momento me esqueci das pessoas. Olhava os sabonetes e desejava apenas que ele limpasse todo o amor que eu era capaz de sentir, todo o meu desejo ardia.
Aquele sentimento de enxergar a mim e toda minha ingenuidade e toda minha vida incompreendida e ignorar toda a necessidade de que eu precisava ficar só. Aqueles sabonetes todos juntos; um rosa redondo, outro branco já mais gasto, outro amarelo. Formei com eles um só, amassei como quem abraça, doeram as mãos, os líquidos do meu corpo saíram de todas as formas.
A vida delas continuava sem mim,mas a minha parou por um instante. Tudo virou água de esgoto. Eu queria morrer sozinha no chão do banheiro porque não suportava o abandono. Eu vomitei de febre, chorei, fiquei magra, e então acreditei na verdade mais dura e menos açucarada que carrego: eu não dou conta de mim e o que me resta agora é respirar meu próprio oxigênio.
25.05.2021
"o céu mentia chuva". Acho que era outono. Você vestia sempre uma camisa larga e um short que deixava as pernas á mostra. Essas pernas eram colocadas sob as minhas na cadeira branca que sentávamos para ler após o almoço. Você como sol espalhava luz em todas as direções, refrescando meu rosto, puxando meu sorriso, me fazendo desviar do livro para olhar teu rosto concentrada em Clarice.
você tinha cheiro de flor de maracujá. cheiro de maresia de tarde. Qualquer palavra ali atrapalharia o momento. Como que cronometrado pelo relógio do amor, a gente parava a leitura e você me puxava pro quarto pra me guiar. Queria ser guia, mas era guiada. e eu não achava ruim. Era bom me desarmar e pela primeira vez ser aprendiz, era pega por seu conhecimento preparado, aprendido meio que sem regras, mas diferente de tudo que eu sabia. E isso me era estranho.
Tive medo pela primeira vez em muito tempo. Medo que aquilo não fosse real, medo que alguém me impedisse, medo que não fosse verdade.
Que bonita era sua empolgação quando falava. Eu sempre falei muito mas não achava ruim em me calar e te ouvir falar sobre sua infância em Pocinhos ou sua família desajeitada. Ou dos seus planos pro seu futuro que eram sempre tantos e não pareciam se encaixar.
Eu me calava.
cada um traça seu destino. o melhor que podemos fazer muitas vezes é assistir e torcer pelo bem. E como eu precisava torcer porque você seguia um caminho torto, que percebi muito depois que te seguir era destruição. Eu te seguia me dispondo. Mas eu sabia que você não tinha razão. E tudo bem. a gente nem sempre tem. Mas todos temos fé. E você tinha muita, de todo tipo, seja com a astrologia, o candomblé ou com o espiritismo. Você era do zodíaco, eu sazonal.
Quem é teu santo. O que é a vida. Era a profundeza nos nossos dias. Parecia que eram dias contados. Eu sentia isso. Assim como a música que tocava enquanto preparava o café. Era "tudo somente sexo e amizade" como cantava Maria Bethânia. Desejei que fosse mesmo. Havia um pacto que nunca fizemos de que café era pela manhã,mas de tarde era chá. Achei também que haveria pacto de outras coisas boas.
Você quis ficar,mas não soube. Eu te expulsei porque era preciso. Você quis gravar meu nome e gravou mais algumas coisas. O último dia foi ficando mais cada vez mais vago. Aqui dentro não há rancor, aqui dentro há lamento.
por mim
por você
por nós.
Não sou dada á astrologia, nem aos santos. nem mais aos espíritos, mas só contigo entendi a grandiosidade do que sou.
17.05.2021